Um jovem de 24 anos, que ficou tetraplégico após um mergulho em uma cachoeira no Espírito Santo, voltou a se mover dias depois de receber uma dose de um medicamento experimental desenvolvido por cientistas brasileiros. O caso, divulgado em vídeo neste fim de semana, mostra o rapaz respondendo aos comandos do médico e realizando movimentos com os braços — algo impensável dias antes.
Ele é o quinto paciente brasileiro a apresentar recuperação parcial de movimentos e sensações após o uso da polilaminina, uma substância desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ao longo de mais de duas décadas. O tratamento, ainda em fase experimental, tem autorização judicial para uso compassivo em pacientes sem alternativas terapêuticas.
Resultado veio em dez dias
A aplicação da polilaminina ocorreu em 7 de janeiro, dentro do chamado “intervalo terapêutico” de até 72 horas após a lesão, considerado crucial para possíveis efeitos regenerativos. Em apenas dez dias, o jovem voltou a movimentar os braços e recuperou sensibilidade até a altura do umbigo.
O médico Mitter Mayer, coordenador do grupo de trabalho sobre a substância no Espírito Santo, divulgou o vídeo e relatou que o paciente teve fratura na vértebra C7 e lesão completa na altura da C4, condição geralmente irreversível.
“Não é milagre. É ciência. É método, estudo e coragem de tentar”, escreveu Mayer na publicação.
De proteína da placenta a revolução médica
A substância polilaminina é uma versão de laboratório da laminina, proteína encontrada na placenta e essencial no desenvolvimento embrionário. Na pesquisa da UFRJ, ela age como uma “cola biológica”, facilitando a reconexão de neurônios danificados na medula espinhal.
A ideia surgiu a partir da observação de como a placenta guia a formação do sistema nervoso nos primeiros estágios da vida. A proposta da equipe liderada pela bióloga Tatiana Coelho de Sampaio é utilizar essa proteína para estimular a regeneração de áreas lesionadas — algo até hoje considerado quase impossível.
O medicamento é uma alternativa promissora aos tratamentos com células-tronco, que apresentam alto custo e resultados limitados em grande parte dos estudos.
Casos anteriores já mostravam sinais de sucesso
Antes do jovem capixaba, quatro pacientes já haviam apresentado melhoras significativas após a aplicação da polilaminina:
- Luiz Fernando Mozer, 37 anos, lesionado em acidente de motocross, relatou sensibilidade e contrações musculares após 48h.
- Paciente de 35 anos, que sofreu queda de moto no Rio, conseguiu mover o pé e recuperar sensibilidade parcial nas pernas.
- Bruno Drummond de Freitas, 31, diagnosticado com tetraplegia, voltou a andar.
- Diogo Barros Brollo, 35, paraplégico, movimentou o pé após o tratamento.
Todos os procedimentos ocorreram sob acompanhamento clínico rigoroso, e os efeitos positivos foram monitorados por exames neurológicos.
Estudos clínicos estão autorizados
Embora ainda em fase experimental, o tratamento deu um passo importante em janeiro, quando a Anvisa autorizou a primeira fase de testes clínicos com a polilaminina. Até o momento, o uso compassivo só é possível mediante autorização judicial.
Segundo a Cristália Indústria Farmacêutica, que atua em parceria com a UFRJ, dez pacientes já recorreram à Justiça para ter acesso à substância. A expectativa é que, com os novos dados, a polilaminina avance nas fases de teste e, futuramente, possa ser registrada oficialmente como tratamento.
Ciência pública e esperança coletiva
A descoberta vem sendo considerada um marco para a pesquisa científica pública brasileira. Ao contrário de medicamentos de alto custo importados, a polilaminina representa uma inovação nacional, com potencial de transformar o tratamento de paraplegia e tetraplegia em todo o mundo.
“Às vezes, o primeiro sinal não é um grande gesto. É um braço que se move. E isso muda tudo”, afirmou o médico Mitter Mayer.
Enquanto o medicamento não chega ao sistema de saúde de forma ampla, cada pequeno avanço representa uma vitória — da ciência, da medicina, da esperança.















