A australiana Kirsty Bryant teve sua vida transformada após uma complicação no parto da primeira filha, Violet, que nasceu em 2021. Uma grave hemorragia obrigou os médicos a realizarem uma histerectomia de emergência, procedimento que remove o útero.
Embora feliz pela chegada da filha, Kirsty se viu diante da impossibilidade de engravidar novamente. Em busca de uma solução, ela fez uma proposta inesperada à própria mãe, Michelle, de 56 anos.
“Se você pudesse passar por uma histerectomia e eu ficar com o seu útero, você faria?”, perguntou Kirsty. A resposta veio de imediato: sim.
Primeira dupla de transplante uterino bem-sucedido na Austrália
O procedimento foi realizado no início de 2023 no Royal Hospital for Women, com participação da médica australiana Rebecca Deans e do sueco Mats Brannstrom — responsável pelo primeiro transplante uterino do mundo em 2014.
Foram cerca de 11 horas de cirurgia para a retirada do útero de Michelle e outras quatro para o transplante em Kirsty. Apesar de intercorrências como perda de sangue e transfusões, a cirurgia foi considerada um sucesso.
Com 32 dias, Kirsty teve sua primeira menstruação no útero transplantado. Três meses depois, ela e o marido realizaram a transferência de embrião, previamente preparado por fertilização in vitro.
Henry nasceu no mesmo útero que gestou sua mãe
Em dezembro de 2023, Kirsty deu à luz Henry, tornando-se a primeira mulher da Austrália a dar à luz após um transplante uterino. O bebê nasceu no mesmo útero que havia gestado sua mãe, décadas antes.
Michelle, a avó e doadora do órgão, celebrou o momento em sua rede social: “Não me arrependo de nada. Ver minha filha feliz é mais do que suficiente.”
Após o nascimento, Kirsty continuou tomando medicamentos imunossupressores para evitar a rejeição do órgão. Em setembro de 2024, porém, ela passou por uma nova histerectomia, encerrando o ciclo de uso do útero transplantado.
Transplante de útero: tratamento ainda experimental
O transplante uterino é uma alternativa experimental para mulheres que nasceram sem útero ou perderam o órgão por doenças ou complicações. O procedimento pode ser realizado com doadoras vivas ou falecidas que já tenham histórico de gestação.
Segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), o transplante de útero tem caráter temporário. Após gerar os filhos desejados, o órgão é removido para interromper o uso dos imunossupressores, que podem trazer efeitos a longo prazo.
Brasil também tem casos de sucesso
O primeiro transplante de útero bem-sucedido no Brasil foi realizado em 2016, no Hospital das Clínicas da USP, com uma doadora falecida. A receptora nasceu com Síndrome de MRKH, condição rara que impede o desenvolvimento do útero. Em 2017, ela deu à luz um bebê saudável, caso inédito no mundo na época.
Mais recentemente, em agosto de 2024, o país registrou o primeiro transplante entre pessoas vivas da América Latina, também em São Paulo. Jéssica Borges, diagnosticada com MRKH aos 16 anos, recebeu o útero da irmã Jaqueline. O gesto fortaleceu ainda mais o vínculo entre elas.
“Faria tudo de novo”, disse Jaqueline à imprensa na época.
Procedimento avança em diferentes países
Além do Brasil e da Austrália, o Reino Unido também celebrou seu primeiro nascimento após transplante uterino. Em fevereiro de 2024, nasceu Amy, filha de Grace Davidson, que recebeu o útero da irmã — a quem prestou homenagem ao nomear a filha.
Referência mundial, a Suécia realizou em 2013 nove transplantes em um estudo clínico. Pelo menos seis mulheres conseguiram engravidar após os procedimentos.
Kirsty Bryant, agora mãe de dois filhos, tornou-se embaixadora do hospital que viabilizou seu sonho. Ela segue compartilhando sua história e ajudando a arrecadar fundos para novas pesquisas.
“Henry é nosso bebê milagre”, disse à revista Woman’s Day.















