A Polícia Civil investiga o repasse integral de valores do programa Bolsa Atleta, da Prefeitura de Brusque, por alunos beneficiados a uma associação esportiva. Conforme o delegado Fernando de Farias, um representante da entidade foi abordado após receber dinheiro de um estudante em frente à Arena Multiuso. O homem foi conduzido à delegacia.
A investigação começou após uma denúncia anônima recebida no fim de agosto. As informações apontavam que pelo menos um aluno teria sido induzido a entregar mensalmente à associação todo o valor recebido por meio do programa municipal.
Segundo o delegado, o estudante repassava o benefício desde o ano passado. A quantia acumulada ultrapassaria R$ 20 mil. Em 2025, a bolsa seria de R$ 1,4 mil por mês, enquanto neste ano o valor foi reduzido para R$ 1,25 mil.
Entrega foi acompanhada pela polícia
Após receber informações de que um representante da associação iria recolher o dinheiro, a Polícia Civil montou uma operação nas proximidades da Arena Multiuso.
De acordo com Fernando de Farias, o aluno chegou ao local e, algum tempo depois, foi abordado por uma pessoa que dirigia um veículo identificado com o nome da instituição. O estudante aproximou-se do automóvel e entregou o valor em espécie.
Os policiais acompanharam a movimentação e realizaram a abordagem logo após a entrega. O dinheiro recém-recebido do aluno foi encontrado com o investigado.
A apuração indica que o estudante era orientado a sacar integralmente o benefício e entregar a quantia em dinheiro à entidade.
Outros beneficiários podem ter feito repasses
Durante o interrogatório, o homem alegou que os valores eram destinados à associação e posteriormente divididos entre outros alunos atendidos pelo projeto que não recebiam o Bolsa Atleta.
Entretanto, depoimentos colhidos pela Polícia Civil indicam, inicialmente, que todos os atletas da instituição contemplados pelo programa poderiam estar repassando integralmente os benefícios.
A investigação buscará identificar outros possíveis casos e esclarecer se as transferências foram feitas de forma voluntária, com conhecimento dos pais ou responsáveis, ou se os alunos foram induzidos a entregar o dinheiro.
Polícia apura destino dos recursos
O delegado ressaltou que o Bolsa Atleta foi criado para ajudar diretamente os beneficiários a permanecer no esporte, incluindo despesas pessoais com equipamentos e outras necessidades relacionadas à atividade esportiva.
Conforme Fernando de Farias, o uso coletivo dos valores pela associação, mesmo que para beneficiar outros estudantes, pode representar um desvio da finalidade prevista na legislação. Isso porque a entidade já teria acesso a recursos institucionais específicos para a manutenção dos projetos.
A Polícia Civil também investigará a destinação final do dinheiro para verificar se os valores foram divididos entre os demais alunos, como alegado.
O que diz a entidade
Em contato com a Associação de Pais e voluntários dos Atletas Especiais de Brusque (Apvaeb), o departamento de jornalismo recebeu o seguinte posicionamento:
DECLARAÇÃO DOS PAIS E RESPONSÁVEIS PELOS ATLETAS DA APVAEB
Nós, pais e responsáveis pelos atletas da APVAEB – Associação dos Pais e Voluntários dos Atletas Especiais de Brusque, vimos, por meio desta, esclarecer os fatos relacionados à destinação dos valores recebidos a título de Bolsa-Atleta.
Temos pleno conhecimento de que a Prefeitura Municipal de Brusque não disponibiliza o benefício da Bolsa-Atleta para todos os atletas da APVAEB que representam o município em competições. Diante dessa realidade e buscando garantir maior justiça e igualdade entre todos os atletas, independentemente de serem ou não contemplados individualmente pelo benefício, foi estabelecido, de forma livre e consensual entre as famílias, que os pais ou responsáveis pelos atletas que recebem a Bolsa-Atleta poderiam, por livre e espontânea vontade, disponibilizar esses valores para que fossem reunidos e posteriormente divididos entre todos os atletas.
Essa decisão sempre foi tomada com o conhecimento e a concordância das famílias envolvidas, tendo como único objetivo proporcionar melhores condições para que todos os atletas pudessem representar Brusque, preservando o espírito de solidariedade, união e cooperação que sempre norteou o trabalho realizado pela APVAEB.
Ressaltamos que essa divisão dos valores nunca ocorreu de forma oculta. Os critérios e valores eram apresentados de forma pública, em reuniões e eventos com a participação dos pais e responsáveis, e as respectivas prestações de contas também eram realizadas de maneira transparente, permitindo que todos tivessem acesso às informações referentes aos valores recebidos e à sua distribuição.
Declaramos, ainda, que em nenhum momento a APVAEB cobrou, reteve ou descontou desses valores qualquer quantia referente a transporte, uniformes, alimentação ou outras despesas dos atletas. Essas despesas, quando não integralmente custeadas pelo Poder Público, também são assumidas pela própria APVAEB, de acordo com suas possibilidades e necessidades dos atletas.
Portanto, nós, pais e responsáveis, declaramos que tínhamos conhecimento da forma como esses valores eram tratados e que concordamos com a iniciativa de reunir e distribuir os recursos entre os atletas, justamente por entendermos que essa era uma maneira solidária e justa de beneficiar todos aqueles que representam o município de Brusque.
Diante dos acontecimentos recentes, manifestamos também nossa discordância em relação à prisão de M. C., especialmente por conhecermos de perto o trabalho que vem sendo desenvolvido em favor dos atletas da APVAEB e por termos acompanhado a forma transparente e dedicada com que essas questões sempre foram conduzidas.
Esta manifestação tem como objetivo tão somente registrar a verdade dos fatos sob a perspectiva das famílias dos atletas e deixar claro que a destinação dos valores mencionada era de conhecimento e contava com a concordância dos pais e responsáveis envolvidos, não tendo sido realizada à revelia das famílias.
Brusque, 9 de setembro de 2026.
Pais e responsáveis pelos atletas da APVAEB













